História.


Gostaria de dedicar alguns momentos para comentar sobre um tema que não tem saído de minha cabeça, dado o efeito dos últimos acontecimentos. Não comentarei sobre protestos e suas consequências midiáticas, políticas, econômicas e sociais. Minhas reflexões, ainda que superficiais e imediatas, tentam compreender de que formas os significados da palavra História vem sendo utilizado de maneira sub-reptícia (na sua expressão mais invasiva, quase infiltrada) e quase esgarçada. Esses usos, como consequência provável, levam ou poderiam levar a diversas e pouco aprofundadas noções que tornam a palavra imprecisa, soando muitas vezes como um conceito vazio e murcho de significados das quais ela é associada em meios teóricos. 

A alguns dias atrás, postei no Facebook uma frase em que considerava o uso da palavra História um disfarce hipócrita para a explicação dos acontecimentos atuais. Além de reafirmar aqui minha opinião, adiciono mais um ideia: Além do uso hipócrita, pois usado como disfarce para conter concepções atuais, ela ainda demonstra o profundo desconhecimento do que se entende por História.

Ultimamente tenho visto surgir muitos comentários tais como: "O Brasil está fazendo História!", "Estamos, pela primeira vez em muitos anos, (re)escrevendo a História do Brasil", "Vamos mudar a História do Brasil!"

Peraí, e desde quando alguém deixou de viver neste fluído contínuo, neste espaço-tempo que se chama História? Quer dizer que antes de mobilizações de vulto e demonstrações de indignação éramos seres não históricos?! Só fazemos História quando nos tornamos e nos sentimos importantes? Quando somos percebidos por políticos e meios midiáticos?

A História é produto último do cotidiano. As relações são presididas por gestos comuns, pela rotina. É ela a sua principal produtora e mantenedora e seu principal vínculo de mudança. Não são só 15 minutos de fama não, é mais do que isso! É perceber e identificar que sempre fomos e seremos agentes sociais e que os grandes acontecimentos nascem na tranquilidade do lar e no chão da fábrica. Os 15 minutos passam e a Histórica continua...

Vejamos como olha um Historiador:
Em termos práticos, ao voltarmos os nossos olhos para a História, aquela que aprendemos desde a escola, vemos que ela muitas vezes ao longo dos anos de aprendizagem foi reduto da vitória ou derrota de grandes Homens, Nações e Instituições. Essa visão historicista e pertencente ao século XIX reverbera com força em nossos discursos, não só porque nos reportamos a uma instituição que reflete conceitos básicos, mas porque ela é reduto de um passado de conhecimentos que a partir dali tendem a ser explorados de formar a dar um espetro cada vez mais ampliado de nossa compreensão sobre o mundo.

A escola é de muitas maneiras, uma das expressões básicas do conhecimento sobre o passado. Ela é histórica, mas isso não significa que deve ou precisa permanecer como fim último, visto que a sua própria provadora, a História, vive ao som dos segundos. Assim nos damos conta, ao vermos deslocadas expressões sobre o conceito, que muitas vezes a História que aprendemos não deve estar sujeita só a um tempo, ela deve  acompanhar e estar atenta a todos os movimentos da própria História!
Esse lapso seria fruto do desconhecimento sobre o passado?! Ou seria o não desenvolvimento deste conhecimento para além das obrigações sociais? E mais: Pode possuir raízes na descontinuidade e construções das concepções do que seria História. Essa que é pensada como parte integrante da vida humana, para além das escolas, em meio ao vivemos enquanto estas palavras estão sendo lidos. 

Nossa linguagem sobre o passado (e sobre o presente) é pobre, fruto de uma conscientização socio-histórica igualmente pobre. Isso acontece muitas vezes porque não tornarmos os nossos saberes parte integrante de nossas vidas cotidianas. De acharmos que discutir nossas necessidades comunitárias e seus caracteres econômicos e políticos são coisas de nerds, politizados, esquerdistas e filósofos de botequim. Filosofar no boteco não é besteira! É um exercício social histórico! O exercício histórico não vem sendo objeto de pratica constante por diversas deficiências estruturais e orgânicas a sociedade brasileira, que assumiu a mais de 500 anos um relacionamento paradoxal  com a História. Concepções que são impossíveis de assumir nestas breves palavras, mas que talvez são elevadas a categoria de "indiferenças ideológicas",  por não obedecer a lógicas comuns as necessidades do mundo atual, sendo  incutidas em um vão murcho e amorfo, muitas vezes incoerente, por não saber exatamente do que se trata.

Usar em vão a palavra História para designar um movimento social natural ao nosso estado de relações deixa entrever o quão o papel do historiador é pouco compreendido. Esse posicionamento escamoteia as tentativas exaustivas de tantos cientistas humanos em fazerem perceberem que o nosso objeto de análise é o hoje, espelhado no passado. De que nossas relações varrem o nosso objeto e andam junto com ele, mas que ainda precisa de evitar um contato direto para não ferir o olhar. Porém, que não deixa de olhar e refletir sobre, ainda que seja de maneira cautelosa o suficiente para não ganhar fama de Mãe Diná.

Então, você quer História?! Vá! Mas vá com calma!

Ao inflar e repetir o uso da palavra História preenchendo um vazio de relações que ainda não compreendemos com toda clareza (pois pouco estamos dados ao exercício), estamos fortalecendo para que o seu conceito cada vez mais seja um saco de retalhos desconexos. Em que qualquer palavra é usada para explicar ou dar sentido a movimentos históricos, pois pode ser entendido como um movimento de homens por mudanças. Viu como soa genérico e não explica nada? Além de estar destituído de toda a carga de expressões e de possíveis concepções imbuídas? Não podemos deixar que a História se torne só mais um saco semiótico indefinido, quando ela pode ser a expressão viva, consciente e com uma posição definida enquanto meio de conhecimento específico que pensa sobre a complexidade da expressão humana em plena ação seja no passado ou no presente.

E aí eu te pergunto: Você sabe o que é História?


Menina de Pano fazendo História, desde o retalho à casa de bonecas.

Comentários

Postagens mais visitadas